21.06.20 Mara Leal

102 dias de quarentena

@maraleal68

Uberlândia-MG: 690 mil habitantes

5.482 pessoas infectadas pela Covid19

79 mortes confirmadas

194 pessoas internadas com Covid19

2 leitos de UTI disponíveis na cidade

 

Desde que as aulas foram suspensas na Universidade onde trabalho na segunda semana de março, faço trabalho remoto e saio de casa, no máximo, uma vez por semana para comprar comida. Algumas vezes saio para tomar um pouco de sol: ontem dei uma volta no bairro à tarde, antes de passar no mercado. Fico muito estressada com essas saídas, sempre acho que me contaminei porque encontrei com alguém na rua sem máscara ou com algum atendente com o nariz pra fora da máscara, ou porque não fiz a limpeza correta de tudo que comprei ou de mim mesma.

Antes desse vírus, só tinha medo de andar na rua sozinha se fosse à noite – o fantasma do estupro que quase toda mulher carrega – , mas agora tenho medo à luz do dia e de qualquer pessoa. Tenho medo do medo, tenho medo de que esse medo continue depois que os cientistas encontrem uma vacina. Como voltarei a abraçar as pessoas?

Faz 102 dias que não toco outro ser humano. Tenho medo de passar a achar isso normal.

Quando iniciei a quarentena criei um diário no computador. Hoje é a terceira vez que escrevo nele. Obrigada Lorena por este convite! Meus registros diários têm sido mais por fotos pelo celular, que também estou fazendo hoje.

Rotina diária:

A quarentena mudou meu fuso horário, ou será que agora – sem horário fixo – estou seguindo o fluxo do meu corpo? Vou dormir entre 2h e 4h da manhã. A partir das 22h vejo algum filme, série ou leio um livro. Hoje assisti uns capítulos de Vikings, queria ficar acordada para ver o primeiro sol de inverno nascer, mas não aguentei. Fui deitar as 4h e coloquei o celular pra despertar as 6:30h. Acordei com os passarinhos cantando, fui pra varanda, já estava amanhecendo e canto com eles: “o sol há de brilhar mais uma vez, a luz há de chegar aos corações, do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente... Quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer” (Juízo Final, de Nelson Cavaquinho).

O Sol e artistas têm iluminado meus dias. O que seria de mim sem o pôr do sol da minha janela, sem minhas plantas com quem converso todos os dias enquanto ouço o som d`água entrando na terra, sem os passarinhos que vejo da janela, sem meus bichos de madeira, sem Caetano, Gil, Fred Mercury, Rita Lee, sem Oliver Sacks e Ana Maria Gonçalves, sem filmes, séries, lives, sem as pessoas queridas que encontro à distância?

Minha leitura atual das madrugadas tem sido Um defeito de cor. Conheci o livro em 2009, fiquei louca pra ler, mas como estava no meio do doutorado e o livro tinha 951 páginas, achei melhor esperar um momento oportuno. E ele nunca veio. Em janeiro me reencontrei com ele numa livraria, uma edição comemorativa de 10 anos e pensei: desse ano não passa! Quando comecei a quarentena, encomendei o livro pela internet. Leio na cama antes de dormir e tenho aprendido e sonhado muito com essa história. O livro conta a vida de Kehinde, uma africana, do reino de Daomé, que foi capturada e trazida para o Brasil como escrava ainda criança. A narrativa é contada em primeira pessoa, como se Ana Maria Gonçalves tivesse encontrado os manuscritos de Kehinde na ilha de Itaparica (Salvador-BA) e apenas preenchido algumas lacunas para sua publicação. Esses dias li a parte em que Kehinde consegue comprar sua carta de alforria. Chorei muito. Sua dona iria separá-la de seu filho – fruto de um estupro pelo seu dono, quando tinha 12 anos – , para que isso não acontecesse ela precisava comprar a carta de alforria dos dois, mas não tinha o dinheiro suficiente. Então é presenteada por Oxum:

Depois que eu já tinha dito à Oxum tudo o que queria e ia descer para entregá-la à Claudina, a cobra apareceu de repente, pulando em cima de mim. A primeira reação foi me proteger, jogando a Oxum contra ela, e quando olhei para o chão tingido de dourado, a ideia surgiu inteirinha, como um raio de sol iluminando minha cabeça. [...] Quando fui pegar a Oxum, olhei o chão ao meu redor e ele estava coberto com um pó dourado que tinha caído de dentro da estátua de madeira. Reparei melhor nela e percebi que sua racha tinha aumentado de tamanho e mostrava um grande talho, e era de lá que escorria o pó. Cheguei com ela perto da janela, onde estava mais claro, e percebi que ainda havia muito mais lá dentro. Forcei um pouco a abertura e a estátua se partiu ao meio, deixando ver que guardava uma verdadeira fortuna (Gonçalves, 2019, p. 343).

Sempre ouvimos falar dos Santos do pau oco, onde os escravos escondiam parte do ouro e pedras preciosas que encontravam no garimpo. Aqui, a autora coloca numa entidade do candomblé esse tesouro, fruto de trabalho escravo, que foi escondido, transportado e presenteado a Kehinde, e que foi usado para sua libertação e de seu filho. Numa cena, a autora consegue nos mostrar toda uma cadeia de trabalho de tantas pessoas escravizadas na luta diária pela libertação dos seus.

Esses dias vi um documentário sobre Cartier-Bresson e ao rever as imagens do assassinato e enterro de Gandhi agora, durante essa pandemia e crise social gerada pelos assassinatos racistas nos EUA, aqui, em todo lugar, me veio tão forte essa sensação de que parece que vivemos num looping, de que nada muda, ou de que tudo muda para continuar igual. Mas, ao mesmo tempo, a luta de pessoas como Gandhi é uma lembrança de que não podemos desistir. Gandhi e Kehinde me fazem lembrar da fala da feminista negra bell hooks, quando diz que a luta pelos direitos humanos, incluindo gênero, raça, etnias, sexo, é uma luta diária, pois sempre vão existir forças contrárias, que querem acabar com os direitos conquistados ou não deixar que avancemos.

Infelizmente, além da pandemia da Covid19, no Brasil estamos vivendo a pandemia da era Bolsonaro. Sou viciada em notícia, vejo enquanto cozinho e como, vejo pelas redes sociais, em notícias escritas e na TV. Temos sofrido uma overdose de notícias ruins, além das tristezas das mortes diárias (mais de mil atualmente), vivemos uma situação de negacionismo da pandemia e uma cortina de fumaça pra tentar tirar todos os direitos conquistados na surdina: da educação, da cultura, dos povos indígenas, do meio ambiente e dos direitos fundamentais de uma forma geral. Como não se contaminar com esse horror diário? Como fazer alguma coisa desde o confinamento para colaborar com as pessoas que mais estão sofrendo com tudo isso? Como ser uma formiguinha em/na rede? Pensamentos e pequenas ações cotidianas.

Apesar de concordar com a necessidade de estarmos conectados com o presente, com o aqui agora, este presente está sempre mediado pelas experiências vividas. Quando tomo o café da manhã na xícara que ganhei de presente de minha querida amiga Célida, esse café quente é tomado com a lembrança da cidade de Salvador, onde vivemos muitas aventuras juntas e das festas juninas, tema da imagem da xícara. Tudo é autobiográfico e ganha novos significados acionados pelo presente.

Achei que a parte mais difícil do isolamento seria a alimentação. Nunca tive ânimo de cozinhar só pra mim e sempre comi fora, só fazendo em casa o café da manhã e algo rápido pra comer à noite. Devido ao medo da comida pronta vir contaminada, tenho cozinhado bastante e aprendido a ter esse prazer individual. Hoje fiz filé de tilápia com camarão e arroz. Pra mim, a comida tem sempre um caráter coletivo, cozinhar pra receber alguém, pra comemorar com as pessoas. Poder oferecer a mim mesma esse prazer diário tem sido uma conquista. A comida é cultural, está ligada a nossa memória afetiva. Já é quase São João, ontem fiz arroz doce: que vontade de dançar um forró bem juntinho!

Nossa... fiquei aqui escrevendo e quase perdi o pôr do sol da minha janela.

Já que iniciei esse diário com música, vou cantar um poema de Cazuza escrito para sua avó – como é bom amar alguém que nunca conhecemos.

 

Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo

Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo

Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim

De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás.

(Poema, de Cazuza e Frejat)